domingo, 29 de agosto de 2010

POEMA NOSSO

Guardarei para você as últimas palavras
e lhe apontarei as falsas testemunhas.
Talvez eu não perceba um gesto,
mas a expressão estará em sua face
e eu serei o réu em todos os momentos.
Guardarei para você os primeiros,
os segundos e os últimos raios de luz
e todo e qualquer som que esta manhã emitir.
Talvez me ausente no momento exato
e perca a memória e, sobretudo, os sentidos
e me descubra só, quando tiver despertado.

Guardarei para você meu peito em chamas,
o fogo que cresceu e se propagou na montanha,
o vento que agitou seus cabelos umedecidos,
a chuva que molhou seus pés ensanguentados,
carne e osso, sou feito de ausência.
Guardarei para você as minhas mãos vazias,
um, dois, três gritos e um murmúrio
(que seja tão baixinho que só você possa ouvi-lo),
toda a verdade que eu trago desta vida
e a ilusão que, por certo, não mais a tenho.
Ainda que tudo tenha passado e seja tarde,
quardarei para você, querida, o último sol
e a primeira estrela que minhas mãos tocarem.

do poeta Otávio Roggiero

REAÇÃO

Quantos anos para se formar,
quanta luta.
O fim no meio do caminho,
a ousadia de andar sozinho,
a liberdade de abraçar a briza,
beijar a noite e amar a terra.

A dignidade de enfrentar a dúvida,
a coragem de enfrentar perigos,
o trabalho pra pagar a dívida,
a renúncia ao ócio e ao lazer.
O adiamento dos velhos anseios
na esperança de um porvir feliz.

Há que se minar a seiva,
há que se podar a árvore,
cortar os galhos e aparar de vez
toda a ramificação.
Há que se extinguir a sombra,
extirpar raízes e limpar a terra
para que viceje a boa plantação.

A erradicação da planta daninha,
o cercear de atalhos
dos que não contemplam
as regras do jogo
e o respeito mútuo
da vida em comum.
Tolher os passos, medir o compasso,
escolher os líderes com lucidez.
Olhar o passado, decidir o futuro,
não votar no escuro,
aproveitar a vez.

Podar os galhos,
exaurir a seiva,
alimentar a terra
de adubo sadio.
Tomar o espaço,
sem deixar aberto
o caminho incerto
e o espaço vazio.

Extirpar o mal,
cortar plantas daninhas,
não deixar a sombra
dominar a terra.
Controlar o solo, cultivar o trigo,
separar os seixos
e botar nos eixos
toda uma nação.

Isso é o que se espera
de uma geração de homens:
dominar o espaço
e conduzir o mundo,
sem submissão aos donos do poder,
senhores do espaço
e donos do destino.