Guardarei para você as últimas palavras
e lhe apontarei as falsas testemunhas.
Talvez eu não perceba um gesto,
mas a expressão estará em sua face
e eu serei o réu em todos os momentos.
Guardarei para você os primeiros,
os segundos e os últimos raios de luz
e todo e qualquer som que esta manhã emitir.
Talvez me ausente no momento exato
e perca a memória e, sobretudo, os sentidos
e me descubra só, quando tiver despertado.
Guardarei para você meu peito em chamas,
o fogo que cresceu e se propagou na montanha,
o vento que agitou seus cabelos umedecidos,
a chuva que molhou seus pés ensanguentados,
carne e osso, sou feito de ausência.
Guardarei para você as minhas mãos vazias,
um, dois, três gritos e um murmúrio
(que seja tão baixinho que só você possa ouvi-lo),
toda a verdade que eu trago desta vida
e a ilusão que, por certo, não mais a tenho.
Ainda que tudo tenha passado e seja tarde,
quardarei para você, querida, o último sol
e a primeira estrela que minhas mãos tocarem.
do poeta Otávio Roggiero
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